quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Influenciável

Vou comprar um macaco
um que não pinte quadros
mas um bem peludo
para pentear.

Vou plantar um coqueiro
imperial assanhado
cheio de coquinho
para coletar.

Vou comprar um GPS
de precisão vulgar
mas um bem fuleira
pra na esquina olhar.

Vou comprar vaselina...
Alguém foi rude demais...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O tardígrado

“Impotência cruel, ó vã tortura!
Ó Força inútil, ansiedade humana!
Ó círculos dantescos da loucura!
Ó luta, ó luta secular, insana!”
Cruz e Sousa, Tortura eterna


“Percebeu que o sol nunca nasceu sobre a cidade?”
Fala do filme A Cidade das Sombras


Talvez eu nunca tenha pensado a respeito, mas aconteceu. Foi terrível quando descobri, mas é sempre recorrente a idéia fixa de um mundo invivível. Acho que sou um cientista sério, renomado e dedicado. Pelo menos é o que sei de mim mesmo. Fora disso, nada mais posso dizer além de meu nome: Anthony. Nada posso dizer sobre os processos de transformação de consciência, mas posso relatar apenas o que minha memória me deixa resgatar do passado.

Já estava na sala, isto é, no laboratório há mais de dez dias, indo de sete em sete horas para o banheiro e com uma reserva de alimento de, pelo menos, mais oito dias. A sala, de sete metros por sete, era cheia de mesas, geladeiras, vidros de substâncias químicas e tinha ainda três colchões. Tinha um banheiro de três metros por três e uma porta por onde se entrava, cuja visão era impedida por uma parede que formava, com a parede da frente, um corredor. Não sabíamos se era dia ou noite, ou se a noite tornara-se dia. Não havia janelas, apenas um ar-condicionado nos trazia um gélido ar, renovado de vez em vez. Havia também uma placa, no início do corredor que dava para a porta, com as letras HPNQ. Achava aquilo estranho, nunca havia reparado naquela estranha sigla, mas, agora que sei do que se trata, tenho medo de continuar assim.

Estávamos trabalhando em uma pesquisa de cultivo de artrópodes marinhos. Nosso setor (estranho eu não lembrar de nenhum outro) era voltado para os tardígrados, sejá lá o que for isso. Minha assistente sabia o que eram, antes de morrer, mas agora apenas eu sabia que se tratavam de tardígrados, sem saber do que se tratavam. Estávamos trabalhando em um tubo de ensaio com um líquido azulado, tirado recentemente de um freezer a quase zero grau absoluto. Esperamos com que o líquido viesse a se descongelar, o que não demorou muito. Nesse instante um dos meus assistentes bateu na mesa, deixando o tubo do último tardígrado que restara cair sobre ela. Rapidamente, corremos e tentamos achar o animal. Talvez fosse um animal pequeno, pois não lembro de ter visto animal algum sobre a mesa. Vasculhei os tubos vizinhos e nada encontrei. Minha assistente, que chamarei Maria (não lembro de seu nome) explicou que eles correriam para uma fonte úmida. Eu e meu assistente (que chamarei José) corremos para o banheiro. Passamos um pente fino nas zonas úmidas do banheiro, com lentes e luvas de atração de tardígrados. Não achamos nada.

Maria vasculhou o ar-condicionado com uma lente de aumento especial, presa à sua cabeça, e nada encontrava. O tardígrado havia desaparecido. O que teria acontecido? Teria ele passado por baixo da porta? Procuramos por perto da porta, mas não vimos lhufas. José, no entanto, buscava o tardígrado euforicamente, sem descansar, sem dormir. O tardígrado havia definitivamente sumido. Resolvemos deixar, perto da mesa, uma isca para ver se conseguiríamos capturar o pequeno artrópode. Assim, esperamos por horas a fio, observando o prato do infeliz, e nada. Adormecemos todos no chão, esperando o momento de dar o bote.

Quando acordamos, vimos que a isca estava vazia. O desgraçado, durante a noite(!) havia tragado tudo o que o prato tinha. Maria, intrigada com aquilo, ficou várias horas tentando teorizar alguma coisa. O que teria feito o tardígrado desaparecer assim? Estaria ele vivendo como as baratas, se escondendo dos hábitos diurnos dos homens? Procuramos o livro dos tardígrados que, por incrível que pareça, era de minha autoria, e nem mesmo sei o que é um tardígrado! Não o encontramos. A única coisa que pudemos descobrir sobre o bicho é que se tratava de um Macrobiotus schultzeri.

Não demorou muito, e já estávamos novamente cansados. Fomos, cada um, para seu colchão, no lado oposto à porta do laboratório. Ali, dormimos com o que, em tempos atrás, quando eu sabia o que eram, chamávamos anjos. Desliguei as luzes e me deitei. Fiquei olhando o teto, iluminado pelas algas fosforescentes dos tubos de ensaio do outro lado da sala. As sombras que os tubos iam fazendo no teto me eram bastante sugestivas. Vi sombras de mim mesmo movimentando-se na parede, sem rumo. Apenas o eu-mesmo, a sombra teúrgica. Na parede, vi meus amigos, em sombras, dançando uma espécie de tango flutuante. Mas, claro, eram apenas sombras espectrais, imagens invertidas. Quanto a mim, passei a ter medo, não das sombras de meus amigos, mas da minha própria, mesmo sabendo que não se tratava de nada estranho, mas de mim mesmo.

Vi que essas sombras saíram da parede, como se elas fossem espectros vivos. Vierifiquei que, de modo simples, começavam a dançar diante de mim. Vi-me, então, sobre um, enorme pantópode abissal, sob o qual pendiam dez longas e finas pernas como colunas, imersas numa escuridão, que formava um imenso mar abaixo de mim. As sombras não eram mais sombras. O próprio escuro tomava a forma de vassouras brilhantes, que dançavam ao meu redor. Não sei porque, mas tive um medo terrível de que roubassem meu travesseiro. Nisso, entramos numa terrível batalha: eu contra um enorme exército de escuros (vassouras-brilhantes). Eles empunhavam escuridões em suas mãos, como se fossem enormes espadas medievais. E eu, com meu travesseiro, corria, fugindo deles, em meio a uma floresta de algas brilhantes. Passei a ter medo de minha própria sombra, que sempre que uma fonte de luz passava por mim, surgia. Na verdade, tive medo dela porque sempre que uma luz se acendia, a sombra era escura, e o escuro era, na verdade, vassoura brilhante. Nesse momento desisti de correr. Já estava cercado. Foi então que me levaram o travesseiro, enquanto eu, amedrontado, ficava lá, para sempre, preso a uma jaula em meio a uma floresta de algas brilhantes.

Acordei. Graças a Deus era um sonho. Levantei-me e corri até a mesa. Vi, eu vi! Era um rastro. O tardígrado havia voltado à mesa. Tomei uma lente e passei pelo rastro, seguindo-o como cão no faro de uma raposa. Desci pelo pé da mesa e cheguei ao colchão do meu amigo. Nem mesmo liguei para seu dedo cortado. Nada encontrei. José parecia dormir profundamente. Seu rosto azulado parecia contorcido de dor. Achei que ele, talvez, tivesse tido um pesadelo também. Poderia estar sofrendo com o pesadelo, trazendo-lhe angústia. Então resolvi acordá-lo, e livrá-lo desse mal. Mas, no que pus a mão em seu ombro, afundou-me o membro numa bolha de carne, oca. Saiu um pequeno gás de seu interior, mas só isso. Quando Maria acordou, verificamos seu corpo. Ele havia sido comido por dentro, ficando apenas seu corppo aparente, como uma casca abandonada. Eu, que segui o rastro do tardígrado, percebi que foi o estranho animal que havia feito isso.

Passamos aquele dia em medo quase absoluto. Qualquer coisa era motivo para jogarmos algum tubo de ensaio um no outro. Quebramos quase todo o laboratório aquele dia. Tantamos, de todas as maneiras, encontrar o tardígrado, antes que ele viesse e nos matasse, assim como matou José. Tantamos, a todo custo, nos manter acordados. O estranho ser cometera um crime hediondo, e assim, mesmo, cometeria a mesma atrocidade conosco se relaxássemos. Pelo menos foi isso que pensamos. Resolvemos nos revezar: sempre que um de nós estivesse dormindo, o outro ficaria acordado, vigiando. Isso se seguiu por alguns dias (não tínhamos calendários ou relógios, mas digo apenas o tempo que acho ter passado por esse tormento). O terror já tomava conta até de nossos ossos, que gelavam, e de nossas carnes, que tremiam involuntariamente. Sentia calafrios, não na carne, mas na própria alma, já nos limites com meu espírito. Não era algo muito agradável, confesso. Menos ainda é hoje, agora que acho que sei o que se passa comigo.

Foi quando aconteceu. Lembrei que havia uma porta para sair do laboratório. Corri para a porta, mas não consegui abri-la. Olhei pela fechadura, mas não pude ver nada. Corri para o outro lado da sala e acordei Maria.
“Claro, tenho a chave”, disse-me ela.
Assim, ela foi à porta, abri-la. Escutei a chave girar e a porta abrir-se. Foi quando ela gritoou. Esse susto me fez pular sobre a mesa. Esperei que o monstro a tivesse pego, ou que alguma coisa a tivesse assustado, ou que o grito fosse pelo menos de alegria. Foi a segunda hipótese.
“Não há nada atrás da porta”, exclamou ela.
“O quê”, perguntei, com espanto.
“Nada, nada mesmo”.
“Nada como, uma parede”, perguntei.
“Não, nada”.
“É um espaço estelar, escuro, infinito”?
“Não”, gritou ela, aparecendo no corredor. Seu rosto suava e seus olhos pareciam refletir realmente aquilo ue ela havia visto: nada. O medo estava estampado em seu olhar, mais do que o medo da morte, mais ainda que o tardígrado.
“Nada mesmo atrás da porta: nem espaço, nem infinito, nem luz ou escuridão, nem espaço ou tempo. Nada. Nem mesmo um buraco, não há nada. Não tem cor, nem mesmo é um buraco... É puramente o nada”, exclamou ela.

Nisso, fiquei assustado. Preferi permanecer longe da porta. Maria, coitada, ficara abalada por ter visto simplesmente nada. Nada pode trazer resultados claustrofóbicos à alma humana no que percebi. Horas depois, ela ficou cansada, adormecendo. Nossa comida acabara há duas semanas e já estávamos desesperados. O tardígrado não aparecera, José morrera, não havia nada no lado de fora do laboratório, não sabíamos quem éramos e, o mais incrível, é que passamos vários dias, antes da fuga do animal, achando tudo aquilo a coisa mais normal do mundo. Agora vejo que não era. Fiquei acordado aquela noite, apaguei as luzes e tentei olhar para o mundo reduzido ao nosso redor. Fiquei pensando no que ela havia me dito sobre o nada atrás da porta. Olhando para as lâmpadas e para o ar-condicionado, tive um lapso de inteligência. De onde vinha o ar do ar-condicionado? E a energia das lâmpadas? Poderiam vir de algum lugar, mas de onde?

Pus-me a fazer várias teorias acerca do que teria acontecido ao mundo que conhecíamos. Estaríamos no inferno? Talvez. Aquele poderia ser o nosso tormento. Mas, que crime teríamos cometido? Que pecado seria tão vil a ponto de nos jogar lá? A passagem passou diante de meus olhos: “não há um justo, nem sequer um”, “pois todos são animais de forma impudica”. Seria assim que a passagem teria de passar em minha cabeça. Talvez estivesse naquele livro, o grosso, tirando frases como “o salário do pecado é a morte”, “não reine, pois, o pecado em vosso corpo mortal”. Mas, depois de alguns instantes, desfiz-me logo dessa idéia.
Tentei formular outras teorias nas horas que se seguiram, mas deu pouco rendimento. Caminhei pela sala algumas vezes, tentando acalmar minhas tensões. Ia à porta, mas meu medo me fazia recuar. Então, foi quando vi: o tardígrado. Ele estava atrás da porta. Batia, chamava um tal de Antônio Jandaíra, esperava resposta. Nada, pensei, talvez não fosse nada, ou o nada. Voltei ao meu lugar. Na hora de Maria acordar, percebi que ela estava morta. Morrera de fome enquanto dormia. Apenas cobri todo seu corpo com o lençol e andei até a parede do corredor. O laboratório começou a desaparecer, e ceder lugar a um quarto frio, escuro e vazio. Meu jaleco mudou para um sobretudo de couro, e um facão apareceu no lado oposto da sala. A placa na parede, que tanto me causou medo, estava agora com pequenas letras escritas embaixo, que acabaram por confirmar a teoria que não havia pensado. As primeiras letras estavam em negrito. Li a frase: Hospital Psiquiátrico Nova Quimera. Estaria louco?

domingo, 13 de setembro de 2009

Minhas Fadas Borderlines

Tem tantas rezas nos umbrais,
tanta mágica pregada em terços
que diabas e fadas do pentagrama
sorriem para mim,
traçando o rosto.

Tracinho de outro sorriso,
sugestivo,
desenha-se entre as colunas das coxas,
riscando o caminho dos sonhos.

E a madeira do umbral
há de passar a porta.
Além da borda,
ficando a divisória
entre a missa e o carnaval.

Carnaval de linha sorridente
de anjas sensuais
e elfas molhadas de sexo.
Benditas sejam essas fadas,
e o carnaval.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Quintal...

(interpretação poética da exposição de Daniele Calaço)


Bandeirolas ao vento
rubro do abraço...

A cidade e a malícia
em casamento...

O cordão do varal
riscando o espaço...

Os carinhos tarados
em movimento...

O mandala da corda
sobre o gramado...

Os narizes anônimos
de alguns momentos...

Filhas de Zeus usando
roupas de baixo...

Os perfumes exóticos
aquém do vento...

Pecadoras de pano
ali pregadas...

Lingeries balançando
num carnaval...

Traiçoeiras calcinhas
envergonhadas...

Vivaz e sedutora,
rubra e carnal...

Petição dos desejos
da flor rachada...

O traçado no espaço
desse quintal...

A lembrança da rosa
desamolhada...

Sonharei outros traços
nesse varal...

domingo, 19 de julho de 2009

O leitor e o menino do porco

Açude aguado. Tempo de chuva. Inverno. Edigar Capado tá na beira d'água, bizoiando um socó dançar bonito na pescaria. Ele tá imaginando o socó magrinho, uma marca de boniteza e graçura. Só que Edigar tá lá pra fazer outra coisa, não pra ficar bestando com o socó. Ele se senta na pedra debaixo do tamarindo, que ele quer é caçar mesmo. Arma a espingarda na pedra, usa a raiz do pé-de-pau de travesseiro e fica baldando o cano. Nessa altura, ele nem lembra mais qual a isca que tá usando pra chamar os bichos.

Mira pra cima, no meio dos galhos, e aproveita pra descansar os olhos e dormir um pedacinho. Cerrando a cortina dos olhos, tenta dormir, mas não pode. Um pivete tá chegando, fazendo um barulho danado, espantando as criaturas da arapuca.

É um moleque cheio de doidice. Ele tá montado num porco preto grande e batendo nele com uma vara feito um chicote.

– Tem gente que inventa mesmo! Agora inventaram de montar porco! – pensa Edigar.

Edigar não conseguiu dormir mesmo! Então ele se senta e esfrega os olhos, tudo mareado de sono ainda. O menino desarriba do lombo do porco, se aprochega do lado e se senta junto dele, cheio de livro na mão.

– Oi moço, caçando o quê?

– Uns bichos que inventaram de botar isso ali – diz ele apontando pro açude.

O menino olha pra frente e vê a barragem, o sangradouro, a vazante. Muito bonito.

– Ei, moço! Lê pra eu?

– Ler o quê, moleque? Só fui até a segunda série, sei ler rápido não!

– Faz mal não, moço!

Oxente, pelo menos Edigar tem com quem bater leriado. Pega um dos livros e lê quase no conta-letras:

As-vi-a-gens-de-gu-li-vér.

Edigar sorri. Já tinha escutado falar desse causo, mas nunca ouviu toda. Só que o livro é muito pesado, todo grosso. Passa as folhas. É cheio de frase difícil. Vê a parte dos cavalos, e fica besta com o nome do reino. Puta-merda, que palavreado doido da bexiga!

– Quer outro livro, Edigar?

– É, eu quero – diz ele, tentando ainda matutar as palavras do outro livro – A-li-ce-no-pa-ís-das-ma-ra-vi-las... vi-lhas.

Taí, Edigar lê esse livro agora bem mais devagar. Aparece o dia e a noite. E os dias avoam. Vem tempo de chuva e época de seca. O açude seca e sangra de novo. Nesse tempo, Edigar passa os olhos num mói de livro que o moleque trouxe no lombo do porco.

Ele fecha o derradeiro e devolve pro pirralho, que sobe no porco dando obrigado.

– Valeu, moço, as outras caiporas bem que disseram que você é um curupira cabra-da-peste!Posso voltar pra cá de novo?

Edigar vê um dos bichos e atira. Era um homem de quarenta anos que tinha chegado com uma enxada. Curioso, o moleque pergunta:

– Que bicho é esse?

– Isso é gente, o gosto é bom. Depois passa aqui pra provar, que primeiro vou assar.

– Tá bom, eu passo.

O caiporinha some no mato, e Edigar agora estira as pernas, coça os calcanhares e se levanta pra ir pra casa.

domingo, 12 de julho de 2009

Fora de fora

Desculpa se te chateei,
foi mal se fui tolo contigo.
Mas é que você pra mim
é só mais uma na lista.

Já fui louco por ti e não mais,
te busquei pra cinemas e bares,
mas o fora que deu, e os pesares,
te tornaram somente uma amiga.

Te vira! É tarde, sem volta!
Ontem sonhei em braile,
falei em morse,
rezei em binário...
E você, minha cara,
Não tava no sonho
Não tava no assunto,
nem mesmo na minha oração!

E após declarar-se na festa,
depois da maconha e do vinho,
você esqueceu que essa merda
não anula o fora recebido.

Não sou louco por ti, não sou mesmo,
não te busco mais, vê se esquece.
O fora que deu, devolvi,
E agora te vira e supere.

(Imagem: Danae, de Auguste Rodin)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Campanha Publicitária

Jingle da campanha Nelson Rodrigues e a felicidade feminina

É a verdade mais clara
mas há quem não acredite:
o canalha dá chifradas
e o bom moço leva chifre

Slogan: Seja um calhorda egoísta e faça uma mulher feliz

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